"E naquele momento eu seria capaz de jurar que éramos infinitos"

As Vantagens de Ser Invisível, de Stephen Chbosky

"Depois do baile, nós fomos na picape de Sam. Desta vez, foi o Patrick que dirigiu. Quando estávamos nos aproximando do túnel Fort Pitt, Sam pediu a Patrick para parar no acostamento. Não sei o que estava acontecendo. Sam então saltou para a traseira da picape e usava só o vestido do baile, sem casaco. Ela disse a Patrick para dirigir e ele abriu um sorriso. Acho que eles já tinham feito isso antes.

De qualquer forma, Patrick começou a acelerar o carro, e antes que chegássemos ao túnel, Sam se levantou e o vento transformou seu vestido em ondas do mar. Quando chegamos ao túnel, todo o som foi engolido num vácuo e substituído por uma música no toca-fitas. Uma linda canção chamada "Landslide". Quando chegamos ao fim do túnel, Sam deu um grito muito divertido, e foi isso. Chegamos ao centro. As luzes nos prédios e todo o resto eram maravilhosos. Sam se sentou e começou a rir. Patrick também riu. Eu comecei a rir.

E naquele momento eu seria capaz de jurar que éramos infinitos.

Com amor,

Charlie."

Eu conheci As Vantagens de Ser Invisível pelo filme, em uma madrugada qualquer de 2016, quando ainda era adolescente.

Não lembro exatamente o que me fez assistir a ele aquela noite, mas lembro muito bem do que aconteceu depois.

A angústia de Charlie me apertou de uma forma que eu não conseguia explicar. Chorei como poucas vezes havia chorado assistindo a um filme e, quando terminou, eu ainda não entendia por que aquela história tinha conseguido me atingir daquela forma. Eu sequer havia compreendido completamente o contexto que envolvia a tia de Charlie, tia Helen.

Só fui entender quando assisti ao filme pela segunda vez.

E talvez essa seja uma das coisas que mais admiro na história de Stephen Chbosky: em nenhum momento é necessário colocar tudo em palavras para que o leitor perceba que existe alguma coisa muito maior acontecendo.

A história não precisa sentar diante de nós e explicar exatamente quem Charlie é, o que aconteceu com ele ou por que determinados sentimentos parecem tão desproporcionais. Tudo está nos detalhes, nas reações, nas memórias fragmentadas, na maneira como ele enxerga as pessoas e, principalmente, naquilo que ele não consegue compreender sobre si mesmo.

A verdade está ali antes mesmo de Charlie conseguir enxergá-la.

Quando finalmente ganhei o livro, não consegui desgrudar dele até terminar. Li durante quatro dias, enquanto ouvia uma playlist que havia criado no Spotify com as músicas que Charlie gravou em um CD para Sam. E foi como se, durante aqueles quatro dias, eu tivesse me recolhido e me tornado alguém extremamente introspectiva.

Os relatos de Charlie ficaram presos na minha cabeça por dias. Não sei explicar se existe um nome específico para esse tipo de empatia tão dramática, mas não consegui simplesmente finalizar a leitura e me sentir "limpa" de tudo aquilo que o livro deixou comigo. Algumas histórias terminam quando fechamos o livro. Essa nunca terminou para mim.

As Vantagens de Ser Invisível é um livro capaz de fazer o leitor sentir cada estranheza, angústia, timidez, medo e sentimento bom de Charlie. É admirável a maneira como o autor nos aproxima tanto das figuras presentes na história, que elas deixam de parecer apenas personagens e começam a ser pessoas que poderíamos conhecer em nossa própria vida. É quase impossível permanecer apático enquanto lemos.

Sobre assistir antes de ler

Eu recomendo cegamente que qualquer pessoa assista ao filme e, em seguida, leia o livro.

Talvez pareça estranho recomendar a obra nessa ordem, mas foi uma das coisas que marcou muito a minha experiência.

O filme é marcante e algumas cenas ficaram tão associadas à história na minha cabeça que eu imaginava que encontraria no livro exatamente aquilo que assisti durante anos, mas não foi bem assim.

Obviamente, o livro é mais detalhado em alguns momentos e, por isso, a leitura traz pequenas quebras de expectativa e até algumas surpresas. Principalmente nos capítulos em que as amizades de Charlie com Sam e Patrick são construídas, descobri detalhes que o filme não teve tempo suficiente para mostrar da mesma forma.

A amizade com Patrick, em especial, me deixou boquiaberta em alguns momentos. Eu tinha consciência de que determinadas coisas haviam acontecido entre eles, mas não tinha ideia de que havia sido tão profundo e se repetido tantas vezes, nem mesmo que Sam sabia de tudo. E isso mudou completamente a maneira como enxerguei o desenvolvimento dos dois.

Também acho interessante observar o que existe em Sam que mexe tanto com Charlie. É bonito e doloroso perceber como os dois compartilham experiências e sentimentos tão semelhantes. Charlie é extremamente sensível, assim como Sam. A diferença é que ela aprendeu da pior maneira a esconder isso um pouco mais fundo dentro de si. Talvez seja justamente essa semelhança que explique a conexão tão grande entre os dois.

Charlie e o Sr. Anderson

Uma das relações que mais gosto na obra é a de Charlie com o seu professor de literatura, Sr. Anderson.

Ele é uma figura de incentivo em meio a tudo aquilo que Charlie está tentando compreender sobre si mesmo. O modo como o professor percebe o garoto, incentiva sua leitura e demonstra que existe algo nele que merece ser desenvolvido é muito significativo.

Charlie passa boa parte da história acreditando que está apenas observando as pessoas ao seu redor, parece estar sempre um pouco distante de tudo, tentando descobrir como deveria agir, o que deveria sentir e qual, de fato, é o seu lugar entre todas aquelas pessoas. É justamente nesse lugar de observador que a presença do Sr. Anderson se torna tão significativa.

Ele é uma das primeiras pessoas que parece enxergar que existe muito mais nele do que aquilo que Charlie consegue perceber.

Quando tudo começa a desmoronar

Todas as relações e momentos que são construídos ao decorrer da história são, de certa forma, como âncoras para Charlie.

Sam, Patrick, seu professor, sua família, as festas, as músicas, os livros e todas as pequenas experiências que fazem com que ele finalmente sinta que pertence a algum lugar. Por isso, quando tudo começa a desmoronar e sair de eixo, é tão angustiante acompanhá-lo.

Charlie retorna para aquele estado em que já esteve tão acostumado, de que nada ao seu redor parece estar certo por sua causa. Ele sente como se todos o odiassem, que sempre faz tudo errado, que não consegue ser bom em nada e que, de alguma forma, todos os problemas existem porque ele está ali.

E talvez seja justamente essa a parte mais tocante do enredo construído.

Porque a ansiedade pode fazer exatamente isso. Em determinados momentos, parece que tudo está errado ao mesmo tempo. Os problemas aumentam, as pequenas coisas se tornam enormes e começamos a enxergar apenas aquilo que não funciona. Parece que somos ruins em tudo e que qualquer coisa que fizermos vai acabar sendo um fardo para alguém.

É angustiante entender Charlie nesses capítulos. Infelizmente, muitas pessoas encontram alguma coisa de si mesmas nele.

O túnel

Acredito que a cena do túnel seja uma das favoritas para muitos, assim como é para mim. Ela é capaz de transmitir grande parte do que a história tenta dizer sem precisar explicar absolutamente nada.

Charlie, Sam e Patrick estão juntos. O carro está andando. O vento transforma o vestido de Sam em ondas. O som dos carros desaparece quando eles entram no túnel e Landslide, de Fleetwood Mac, começa a tocar e, então, eles chegam ao outro lado... As luzes da cidade aparecem, Sam ri, Patrick ri, Charlie ri. E, por alguns segundos, não existe passado, expectativa, medo ou culpa. Existe apenas aquele momento. 


E naquele momento eles são infinitos.

É incrível como o filme e o livro conseguem transmitir a mesma mensagem e sentimento de formas diferentes.

No livro, tudo acontece através das palavras de Charlie e da maneira como ele registra aquela experiência. Mas, no filme, a música, a fotografia, os atores e o movimento do carro conseguem transformar aquele sentimento em alguma coisa que podemos praticamente enxergar.

Foi uma das poucas vezes em que senti que uma adaptação conseguiu preservar não apenas uma cena, mas a sensação de uma cena.

Isso explica o por que essa passagem ficou tão marcada em minha memória desde aquela madrugada de 2016. Mesmo sem compreender completamente tudo o que aquela história estava tentando transmitir, anos depois, ao ler o livro e reencontrar essa cena através das palavras de Charlie, percebi que o sentimento que havia me tocado naquela madrugada ainda estava ali.

Depois que a história termina

Quando penso em As Vantagens de Ser Invisível, não penso apenas em uma história sobre adolescência. Penso em uma história sobre pessoas tentando encontrar um lugar no mundo enquanto carregam coisas que dificilmente podem compreender. Penso na amizade, solidão, trauma, pertencimento, amor, culpa e na dificuldade de simplesmente existir enquanto nossa cabeça parece ser um lugar tão barulhento. E penso também naquele sentimento estranho que permanece depois que fechamos o livro.

Stephen Chbosky conseguiu escrever uma história em que muitas das coisas mais importantes não são explicadas imediatamente. Algumas precisam ser percebidas, outras precisam ser sentidas e algumas só fazem sentido depois que voltamos para determinadas páginas ou retornamos a determinadas cenas.

Quando assisti ao filme pela primeira vez, eu não entendia completamente o que estava sentindo. Anos depois, lendo o livro, percebi que essa pode ser uma das experiências mais bonitas que uma obra pode proporcionar: ela pode nos fazer sentir algo mesmo antes de compreendermos o porquê do sentimento.

E exatamente por isso, tantos anos depois daquela madrugada, As Vantagens de Ser Invisível continua sendo uma história que ficou arquivada comigo. Algumas histórias são assim: a gente termina de ler, fecha o livro... mas não consegue simplesmente fechar tudo aquilo que sentiu.

As Vantagens de Ser Invisível

Stephen Chbosky

Gênero: Ficção Contemporânea / Romance

Minha impressão: ★★★★★

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